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No Ângulo | Futebol é preciso

O dia em que um cartola me convidou para ir às compras

26/02/2016

Créditos da imagem: Telecine

Peço licença para contar mais três coisinhas sobre a vida de repórter, que me encanta. Rapidinho, e todas ligadas a Tostão. Na primeira vez que fui entrevistá-lo em Houston, Texas, ele não queria falar com ninguém. E acho que com total razão. Vivia dias de incerteza sobre continuar a carreira. O diretor da revista mandou que ligassem para Tostão no hospital,  e ele não atendeu. Contratou um repórter local e nada feito. Então o diretor me escalou. Tinha voltado de uma viagem e pedi para que mandasse outro. A resposta foi “não, ele não pode se fu…”. Perguntei: “e eu posso?”. A resposta foi sim.

Até hoje, quando me sinto “mau”, coisa raríssima, penso que o diretorzão gostaria mesmo que eu me fu… Quando me acho “bom”, o que acontece praticamente o tempo todo, vejo como um elogio.

Perguntei ao chefe o que deveria fazer caso não conseguisse falar com Tostão e ouvi que deveria mostrar como o povo de lá via e sentia o drama de um ídolo do nosso futebol. Houston, Texas, antes de Pelé chegar no Cosmos. Deu para imaginar, né?

Voltando ao hospital (lembra-se da coluna anterior?), depois do diálogo duro, cheio de acusações e promessas de ir à Justiça,  o presidente do Vasco, ao levantar-se, olhou para mim e só então se tocou. Quando pensou perguntar se eu era jornalista, já respondi que sim. Ficou pálido e indagou se eu conhecia o maravilhoso shopping de arte e decoração da cidade. Informei que não e ele convidou-me três vezes para acompanhá-lo. Eu iria gostar, garantia. E quatro vezes ouviu a mesma resposta: “deixa como está, presidente…”.

Voltei a Houston um tempinho depois, quando Tostão foi fazer novos exames e saber que devia parar com a bola. O diretor mandou que eu levasse máquina e fizesse as fotos. Argumentei que não sabia fotografar e ele disse que o Lemir Martins me ensinaria. Ouvi os ensinamentos e, ao final da aula, pedi ao Lemir para segurar uns minutos a máquina e os filmes, enquanto eu ia pegar passaporte, dinheiro e passagem, dois andares acima. De lá desci direto. Sempre achei que quem fotografa e escreve por um salário só, pode estar tirando trabalho de alguém.

Em Houston, fui ao jornal, que já conhecia, e contratei um fotógrafo. Papo e fotos foram no apartamento do médico mineiro Abdalla Moura, que havia operado e cuidava da vista de Tostão.  Acho que o diretor não gostou de alguma coisa, porque não me escalou para a Copa da Alemanha-74.

No início de 82, a Seleção estava concentrada na Toca da Raposa, em Belo Horizonte. Eu estava em férias e, por minha conta, resolvi tentar entrevistar o agora doutor Eduardo Andrade, que continuava gostando de futebol, mas não dava entrevistas. Peguei o busão, hospedei-me num 5 estrelas – uma na porta, quatro no céu – perto da rodoviária. Marquei e fui conversar com o amigo Gérson Sabino (irmão do escritor Fernando), apaixonado e profundo conhecedor do futebol. Gérson contou tudo e algo mais. Na manhã seguinte, sábado, dei plantão no Hospital Santa Lúcia. Doutor Eduardo não demorou a aparecer. Estranhou me ver e perguntou o que eu queria. Disse. Conversamos uns 15 minutos, sem compromisso. Sobre a vida… Disse que ia conversar com  a família e me ligaria no hotel. Ligou. Perguntou se a entrevista me ajudaria a melhorar na revista, ir para novo emprego, algo assim. Se fosse, estaria me esperando. Caso contrário, pedia para ser liberado. A resposta foi não. Menti e minto muitas vezes, mas naquele caso não. Era mais do que uma reportagem. Era…

Peguei o busão de volta, arquivei o papo com Gérson Sabino e deixei Tostão seguir viagem para Mataízes, litoral do Espírito Santo, onde tinha uma casa de praia, que conheci em janeiro de 1970, quando fui entrevistá-lo para a Edição de Esportes do Estadão.