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No Ângulo | Futebol é preciso

O Corinthians e o irresistível coletivo

02/04/2015

Créditos da imagem: Getty

A cada jogo que testemunho a evolução deste atual Corinthians, penso que se trata de um time que pode criar novos paradigmas no futebol brasileiro.

No Brasil, desde que me conheço por gente, costumamos analisar as equipes sob três critérios: qualidade técnica, tática e espírito vencedor.

Ou seja, sempre justificamos as vitórias e as derrotas dizendo que “esse time não tem jogador!”, “levou um nó tático do técnico adversário” e “time tal é encardido, o outro é pipoqueiro”.

O sucesso do Barcelona do Guardiola e do Corinthians de Tite (de 2012) fez com que começássemos a ter uma maior noção da importância do perfil coletivo da equipe. Ela é muito mais do que um amontoado de atletas, uma disposição tática com jogadores corretamente posicionados ou “um time que não sente a pressão”: ela é como um organismo vivo independente.

Por isso, existem times nos quais “qualquer um joga bem” e outros que são verdadeiros trituradores de “grandes jogadores” (como o São Paulo de hoje, por exemplo).

Este Corinthians é o caso mais bem acabado que já vi no Brasil de uma equipe focada, com jogadores em comunhão e desempenhando várias funções em campo, tudo isso aliado a uma grande movimentação e bola de pé em pé em máxima intensidade, tipo “futebol” total”. Todos participam da marcação, e os únicos jogadores mais limitados tecnicamente são os zagueiros e o volante Ralf; de resto, absolutamente todos tratam bem a pelota.

Tite parece ter conseguido impor um padrão de excelência que nunca vi no futebol brasileiro, tanto no trabalho técnico, quanto na mentalidade dos jogadores. A cada entrevista dada por seus comandados, fica uma demonstração de confiança e cobrança constante, com falas sobre “fazer história”, “manter o padrão fora de casa”, “ter o melhor aproveitamento do clube na história do Paulista”, mas sempre deixando claro que a equipe ainda está em formação e precisa manter os pés no chão.

Eu sempre me perguntei o porquê de no Brasil ser praticamente impossível um time fazer campanhas históricas durante toda uma temporada, entrando em campo já vencedor – dentro ou fora de casa – como fazem alguns grandes europeus. Entendo que isso tem a ver com a quantidade de grandes clubes no Brasil – sem paralelos com qualquer outro país do mundo – que se sentem “no direito” de vencer mesmo as melhores equipes, e com a mentalidade dos próprios grandes esquadrões, que não se sentem “merecedores” de desfilar contra tantos rivais de história e tradição. Nesse segundo ponto, creio que o Timão de Tite tem uma atitude diferente: parece ter metas e cobranças próprias, sem se balizar pelos adversários. E tem todas as razões para poder ser assim “arrogante”.

O elenco é absurdamente farto. Além de grande quantidade de bons jogadores para todas as posições (se for analisar as formações titular e reserva, apenas o zagueiro Yago levanta desconfianças, enquanto atletas como Stiven Mendoza e Malcom não estão nem entre os 22), eles cumprem funções e têm perfis diferentes. Eu diria que o único tipo de jogador que falta para este plantel é um quarto homem de meio-campo que carregue a bola em velocidade, estilo Montillo. De resto, tem de tudo.

Mas, mesmo com tanta competição interna, o ambiente é excelente: todos os jogadores parecem felizes, têm a oportunidade de mostrar que são úteis e demonstram estar motivados. O comando de Tite é inspirador e trabalha a mentalidade dos atletas: como mostra, basta ver o mantra que se tornou a palavra “concentração” entre os jogadores do elenco, a e a diferença na atitude do zagueiro Felipe, que como num passe de mágica passou do zagueiro contestado do ano passado para o firme titular da posição. Como diz o colega Guilherme Boeira (colunista do No Ângulo), “90% dos jogadores que tem por aí são do mesmo nível técnico, o que faz diferença é a situação e o ambiente para que joguem”. E nisso, Tite parece fazer cada vez mais diferença, pois parece realmente implantar uma “filosofia de trabalho”.

Apesar de experiente, o elenco é faminto e conta com muitos jogadores que têm o perfil de decidir em grandes jogos. Boa parte é identificada com o clube, e casos como o de Jadson – que recusou uma oferta milionária do futebol chinês para permanecer – só reforçam isso. Se o peruano Guerrero – merecidamente considerado o principal destaque da equipe e que, ainda assim, praticamente não fez falta nas partidas em que não pode atuar neste ano – também continuar, será ainda mais incrementada essa “cultura interna” de valorizar o que significa atuar pelo Corinthians.

Por fim, some a isso tudo a torcida sempre presente e participativa, em total comunhão com o time, que vem a cada jogo transformando a Arena Corinthians num grande alçapão.

Ou seja, não são à toa os impressionantes números desta temporada: após a goleada por 4 x 0 contra o Danúbio, são 19 partidas oficiais, com 16 vitórias e 3 empates (aproveitamento de 89,5%), 39 gols pró e 9 contra. Importante destacar que disputando o “grupo da morte” da Libertadores e o estadual mais competitivo do país.

No futebol é sempre arriscado fazer tais previsões, mas, salvo acidentes, parece difícil esse Corinthians sair dos trilhos. Se em 2013 já foi “um acidente” (a horripilante atuação do árbitro paraguaio Carlos Amarilla contra o Boca Juniors) que eliminou o clube da Copa Libertadores, a equipe deste ano dá mostras de ser muito mais forte. E, ainda em formação.

O Barcelona que encantou o mundo com Guardiola, começou a nascer no segundo semestre de 2008, e chegou ao auge mais de três anos depois. Se não deixar os problemas financeiros interferirem, e souber manter a base e o trabalho a médio prazo, este Corinthians dá pinta de que pode fazer sua história.