
Créditos da imagem: Adriano Vizoni / Folhapress
Nesse 30 de junho completou-se mais um ano de uma das maiores vitórias que a Seleção Brasileira já teve: o 3 a 0 contra a Espanha pela final da Copa das Confederações de 2013.
Certamente muitos leitores devem estar achando esta afirmação absurda. Afinal, hoje, já sabedores de que o Brasil foi eliminado da Copa de 2014 com o surreal 7 a 1 para a Alemanha, e que a Espanha foi eliminada ainda na fase de grupos da mesma Copa, com direito a tomar 1 a 5 da Holanda, o normal é achar que foi uma final de um torneio menor que não quis dizer nada.
Mas essa é uma visão injusta. Aquela Espanha era então vista como uma das maiores, senão a maior, seleção de todos os tempos. Não bastasse ser a então campeã do mundo e bicampeã europeia, vinha também de um recorde de três anos e 29 partidas oficiais de invencibilidade (que começou com a derrota para a Suíça por 1 a 0 na estreia da Copa do Mundo de 2010, jogo dominado pela Espanha de cabo a rabo, como todos os da Fúria naquele período).
E mais: aquele time de Xavi e Iniesta não recebia sequer um gol em partidas eliminatórias desde a Copa das Confederações de 2009, passando oito disputas do tipo (quatro pela Copa do Mundo 2010, três pela Euro 2012 e uma semifinal contra a Itália pela própria Copa das Confederações 2013) sem que os adversários pudessem nem ao menos superar Casillas.

Hoje é comum que se diga que aquela Espanha era decadente. Nada pode ser mais falso. Aquela Espanha era unanimemente apontada como a melhor seleção do mundo. Havia no exterior quem se perguntasse se não seria o melhor selecionado da história. E naquela mesma Copa das Confederações, foi aplaudida pela torcida brasileira na vitória absurdamente dominante contra o Uruguai (da qual o Minuto a Minuto do Terra relatou: “Primeiro tempo de amplo domínio espanhol. O time de Vicente del Bosque chegou a beirar os 90% de posse de bola […). Destaque para o público da Arena Pernambuco, que começou a partida torcendo para o Uruguai, mas logo ‘sucumbiu’ ante à qualidade do toque de bola espanhol.”), e tinha imposto um raríssimo 10 a 0 contra o Taiti (sim, o Taiti não é nada, mas um 10 a 0 acontece a cada eclipse solar) no jogo que possui o recorde de maior margem de gols em uma competição maior da FIFA.
Para mim é nítido que a surpreendente e acachapante vitória da então emergente Seleção Brasileira de Felipão é que quebrou algo na equipe de Del Bosque. Como dizem os americanos, “o Brasil roubou a alma da Espanha”, com protagonistas que não eram “astros europeus” (Neymar, então do Santos, foi o Bola de Ouro da competição; Paulinho, do Corinthians, foi o Bola de Bronze; e Fred, do Fluminense, artilheiro com dois gols na final), não apenas derrotar a inabalável multicampeã, mas goleá-la e chegar a dividir a posse de bola com ela (que terminou próxima a 50% a 50%) em uma partida há muito ansiada e que poderia ser a apoteose histórica de “La Roja”.

Parece exagero pensar nisso tudo para uma “simples” Copa das Confederações? Pois considerem que o Brasil é “o país do Futebol” (por mais que muita gente daqui pareça não gostar disso), a seleção mais vitoriosa da história, e a única a ser campeã de algo no período de hegemonia espanhola (a Copa das Confederações de 2009, quando a Espanha foi acidentalmente eliminada pelos EUA nas semifinais e perdeu uma invencibilidade de 35 partidas e 933 dias). As duas seleções foram como favoritas para a Copa de 2010, mas novamente não se enfrentaram. Nem sequer em amistosos.
Havia temor inclusive de que a Espanha humilhasse a Canarinho em pleno Maracanã. Os otimistas esperavam que o Brasil pudesse vencer, mas nunca goleando ou jogando melhor do que a rival. Era uma decisão com um simbolismo de “entrega do cetro do futebol mundial” que valia muito mais do que o título da Copa das Confederações em si.
Não tenho dúvidas de que esta incrível vitória do Brasil teve muito a ver com a posterior tragédia vivida pelo Escrete na Copa de 2014. Foi a partir dali que a Seleção passou a ser tida como favorita ao título, a conquista deixou de ser vista como um sonho e passou a ser uma obrigação, e a pressão (que desequilibrou os jogadores e teve em Thiago Silva o seu maior símbolo) se tornou pesada demais para aquele grupo.
Mas, independentemente do que tenha vindo depois, sempre guardarei com carinho as lembranças daquela partida em que, após um período em que o Brasil simplesmente não vencia mais nenhuma seleção de peso (sob o comando de Mano Menezes), deu uma demonstração do porquê ocupa o lugar que ocupa no futebol mundial, e “quebrou” uma das grandes seleções da história, que entre 2007 e 2013 colecionou títulos, perdeu pouquíssimos jogos e não havia sido dominada em nenhum. Não é coincidência que depois de sequências invictas de 35 e de 29 partidas, imediatamente após a impiedosa derrota para o Brasil aquela Espanha jamais foi a mesma e passou a colecionar fracassos. Ninguém fica velho do dia para a noite.
Deixo o convite para um texto que escrevi antes daquela final, ainda anterior ao lançamento do No Ângulo, em que falo o que esperava da decisão e seus possíveis desdobramentos: “Por 2014, é melhor que dê Espanha“.
Para finalizar, um vídeo do Hino Nacional Brasileiro antes da partida. Tenho relatos de quem esteve no Maracanã (das partidas que não vi in loco, esta é talvez a que eu mais gostaria de ter visto) de que o ambiente foi único. E também é bom lembrar que esta maneira de cantar o hino foi espontânea naquele contexto, em que a Seleção chegou extremamente desacreditada para a Copa das Confederações e o País vivia um momento de ebulição e incertezas com as históricas manifestações das “Jornadas de Junho”. Naquela competição tudo saiu perfeito para o Brasil, no exato oposto ao que aconteceu na Copa do Mundo, disputada um ano depois. E, provavelmente, uma coisa é consequência da outra.
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