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O futebol brasileiro parece relutar em colocar os pés no chão. Acabou, aqui e no resto do mundo, a fase em que sobravam grandes jogadores.
Usando um jargão famoso da TV, temos que olhar para nosso futebol e dizer: “isso não te pertence mais”. A dureza que estamos passando nas Eliminatórias para a Copa, como nos empates sofridos contra Uruguai e Paraguai, é indicativo de que devemos, diante do calendário apertado e da falta de tempo para treinar, usar a base de times já montados para ganhar em entrosamento e eficiência.
Houve uma época em que o futebol brasileiro podia se dar ao luxo de escolher os jogadores independentemente dos times em que jogavam. Isso foi possível em boa parte das equipes que ganharam Copas para nós. Basta olharmos três de nossas escalações campeãs do mundo. A recordista em pluralidade de clubes foi a de 2002.
Esclareço que peguei os 11 jogadores que atuaram na maior parte das partidas, ou nas fases mais decisivas. Na Copa Japão/Coréia, tivemos 11 jogadores de 11 times diferentes: Palmeiras (Marcos), Roma (Cafu), Milan (Roque Júnior), Bayern Leverkusen (Lúcio), Lyon (Edmilson), Real Madrid (Roberto Carlos), Atlético-MG (Gilberto Silva), Atlético-PR (Kléberson), Barcelona (Rivaldo), Paris St. German (Ronaldinho) e Inter de Milão (Ronaldo).
Em 1994, foram dois do Palmeiras (Mazinho e Zinho), dois do La Coruña (Bebeto e Mauro Silva), um do Reggiana (Taffarel), Bayern de Munique (Jorginho), Fluminense (Branco), Stuttgart (Dunga), Barcelona (Romário), Roma (Aldair) e Bordeaux (Márcio Santos).
Até na Copa de 70, que teve a Seleção considerada por muitos a melhor da história, foram oito times fornecedores de titulares: três do Santos (Carlos Alberto, Pelé e Clodoaldo), dois do Cruzeiro (Tostão e Piazza), um do Corinthians (Rivelino), Flamengo (Brito), São Paulo (Gerson), Botafogo (Jairzinho), Fluminense (Félix) e Grêmio (Everaldo).
Na partida contra o Uruguai na semana passada, entraram em campo dois do Barcelona (Daniel Alves e Neymar), e um de Internacional (Alisson), Inter de Milão (Miranda), Paris Saint-Germain (David Luiz), Atlético de Madrid (Filipe Luís), Wolfsburg (Luiz Gustavo), Manchester City (Fernandinho), Chelsea (Willian), Beijing Guoan (Renato Augusto), e Bayern de Munique (Douglas Costa).
Não sou contra o teste com o exército de brasileiros espalhados por aí, mas em época de falta de craques entre os tops do mundo (exceção ao Neymar), e com dois dias para treinar a cada convocação, apostar mais em uma base mais entrosada me parece a melhor opção. E isso já foi feito até em momentos mais ricos de talentos. Basta ver que em 1958, na Seleção recheada de craques que atuavam no país e que venceram a Copa pela primeira vez, apenas cinco times tiveram titulares na escalação que ficou para a história: quatro do Botafogo (Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagallo), três do Vasco (Bellini, Vavá e Orlando), dois do Santos (Pelé e Zito), um do Corinthians (Gilmar) e um da Portuguesa (Djalma Santos).
Em 1962, repetimos o título com titulares de quatro equipes: quatro jogadores do Santos (Gilmar, Zito, Pelé e Mauro), cinco do Botafogo (Nilton Santos, Garrincha, Amarildo-substituto de Pelé-, Didi e Zagalo), dois do Palmeiras (Djalma Santos e Vavá) e um do Bangu (Zózimo).
Pegando o histórico de um de nossos principais adversários, vemos que a Alemanha usou a mesma estratégia em times campeões em um intervalo de 40 anos: Alemanha 1974 – seis do Bayern de Munique (Mayer, Beckenbauer, Muller, Breitner, Shuarzenbeck e Hoeness), dois do Eintracht Frankfurt (Grabowisk e Holzenbein), dois do Borussia Mönchengladbach (Bonhof e Vogts) e um do Colonia (Overath) Alemanha 2014 – seis dos Bayern (Manuel Neuer, Philipp Lahm, Jérôme Boateng, Bastian Schweinsteiger, Thomas Müller e Toni Kroos), um dos Borussia Dortmund (Mats Hummels), um do Schalke 04 (Benedikt Höwedes), Real Madrid (Khedira), Arsenal (Ozil) e Lazio (Klose).
Será que não é hora de usarmos a base de times que estão bem no Brasil para depois rechear com grandes “estrangeiros”? Corinthians –mesmo com os que se mandaram para a China- e Atlético-MG, melhores times de 2015 no país, não deveriam ser a base da Seleção, complementados com alguns jogadores daqui e de fora? Proponho algo mais restritivo para que possamos ter chances mais amplas de ter sucesso.
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