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No Ângulo | Futebol é preciso

Entrevista: Após renovação, Fernando Prass declara que pretende encerrar a carreira no Palmeiras

09/10/2015

Créditos da imagem: esportes.yahoo.com

Em entrevista exclusiva, goleiro se diz realizado no Palmeiras e abre o jogo sobre contrato de produtividade, situação do Vasco, participação no Bom Senso FC, jogos às 11h e muito mais.

Por André Mosca e Gabriel Rostey

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Mesmo tendo jogado no dia anterior, Fernando Prass não parava seu treinamento na segunda-feira em que foi realizada esta entrevista, no Centro de Treinamentos do Palmeiras. O assessor de imprensa do clube alviverde explicou: “Ele é workaholic, é sempre assim: é o primeiro a chegar e o último a ir embora”. A seguir, confira o ponto de vista do articulado e politizado arqueiro, ídolo de Palmeiras e Vasco:

No Ângulo – Você é sempre o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos. Você se considera um Workaholic?

Fernando Prass – O goleiro sempre tem o seu treinamento separado do grupo, com o treinador de goleiros. Depois é exigido pelo treinador principal para que fique à disposição do grupo para fazer jogos, coletivos, finalizações. Quando acaba o treino, onde todo mundo já fez seu trabalho, aí vem a etapa complementar, coisas preventivas, como musculação, reforço e CORE, para prevenir lesão, não ter desequilíbrio muscular. Depois dos 31, 32 anos, o corpo começa a perder massa muscular, e eu faço um trabalho especial que tem dado certo, já que tenho ganhado peso e perdido percentual de gordura, mesmo com 37 anos. O goleiro precisa desse trabalho intensificado, separado por grupos musculares, já que sofre muita pancada, pratica muito salto e tem muito impacto, tendo assim que estar com a estrutura bem fortalecida para proteger as articulações.

Na sua carreira, quais são as defesas que você fez pelas quais tem mais carinho?

Ah cara, é tanta coisa, mas tem algumas que marcaram. Tem uma sequência de três defesas no mesmo lance, uma atrás da outra, pelo Vasco contra o Flamengo, no Maracanã, em 2010, o último clássico antes do fechamento do estádio para a Copa do Mundo; tem os pênaltis pelo Palmeiras contra o Corinthians que ficaram na memória; e tem uma defesa pelo Coritiba, no Couto Pereira, se não me engano contra o Grêmio, que eles cruzaram na área e o jogador cabeceou no primeiro pau, mas errou, a bola sobrou no segundo pau, o jogador do Grêmio dá um voleio, e eu consigo pegar e segurar a bola firme, em cima da linha, com uma mão só.

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Você chegou ao Palmeiras numa fase complicada, e neste ano, vendo de fora, o clube mudou muito, assumiu um perfil comprador e está tendo melhores resultados. Internamente teve essa mudança mesmo?

Quando eu cheguei, o Palmeiras estava passando por uma série de mudanças. Teve o rebaixamento, que é sempre difícil para um clube grande cair para segunda divisão; um mês depois da minha chegada tiveram as eleições, mudou o comando no meio de uma Libertadores. O presidente, quando assume, precisa de tempo até tomar pé da situação, entender como as coisas estão funcionando, dimensionar os problemas do clube e depois conseguir colocar a casa em ordem. O Paulo (Nobre, presidente do clube) sempre diz que é neste ano que o Palmeiras está tomando água limpa, já que antes ele dava o exemplo da caixa d’água, que saía mais água do que entrava. Agora o Palmeiras está mais equilibrado, organizado para um trabalho a longo prazo. Nós sofremos com os resultados, mas na minha visão o futebol tem que ser programado a longo prazo mesmo para você poder colher melhores resultados, caso contrário a cada seis meses você vai trocar treinador, fazer um time novo e viver momentos de oscilação.

E eu também estou maravilhado com o clube (Palmeiras), numa identificação muito grande, renovei o contrato por dois anos. Então a ideia é essa, se eu pudesse escrever um roteiro seria que eu encerrasse a carreira aqui.

Por que você acha que não teve chance na Seleção Brasileira?

Primeiro que a safra de goleiros no Brasil é muito boa. Se não tem um goleiro que é extraclasse, como foi o Taffarel e como foram outros, hoje tem muitos bons goleiros, todos muito parecidos, e aí é preferência do treinador, e é como a gente fala, “goleiro é cargo de confiança”. Eu fiquei quatro anos fora do Brasil, também, e numa idade muito importante, dos 27 aos 30, e isso deve ter colaborado. Mas é uma situação que eu prefiro nem pensar muito, procuro me concentrar no meu trabalho no Palmeiras, e todo mundo sabe que a seleção é sempre consequência do bom trabalho que se faz no clube.

Você citou o Taffarel. Ele foi a sua maior referência, seu ídolo no gol?

Foi. E é até estranho, porque eu era gremista, fui formado no Grêmio, dez anos, e a minha maior referência era o Taffarel. Acho que da minha geração, de 70 e poucos, oitenta, se perguntar para qualquer um, a maior referência de todos era o Taffarel. Eu gostava muito do estilo dele, algumas vezes fui ao Beira-Rio, mesmo sendo gremista, para ver ele jogar.

Falando no Grêmio, o que você acha que faltou para você ter uma sequência lá?

Goleiro é muito complicado, porque você não vê um goleiro entrando 15 minutos, jogando um jogo e voltando, ganhando experiência como um atacante. O jogador de linha você vai maturando, coloca ele no intervalo, joga um ou dois jogos, depois sai do time de novo. Goleiro é sequência de jogos, e na época o Danrlei era ídolo, uma referência no Grêmio, além do Murilo, que era reserva dele e também outra referência.

O Grêmio formou além de você e dos citados, o Cássio e o Marcelo Grohe. Você sente que tem uma escola diferenciadas de goleiros por lá?

Realmente o Grêmio formou muitos goleiros. Posso citar alguns que também tinham muita qualidade, como o Eduardo Martini, que jogou no Avaí, na Ponte Preta e hoje está no Brasil de Pelotas; o Diego, que jogou no Fluminense e no Atlético Paranaense, além de inúmeros outros goleiros que eram da seleção de base o tempo todo. O Grêmio sempre fez um trabalho muito bom com goleiros.

Você tem passagens marcantes pelo Coritiba, pelo Vasco e por Portugal. Você pretende encerrar a carreira no Palmeiras?

Provavelmente sim. É um clube grande que eu me identifiquei muito rapidamente, apesar de não ser da tão falada “Escola de Goleiros do Palmeiras” e de ter a sombra do Marcos sempre presente. Mas acho que tudo isso também ajudou a me estabelecer aqui, já que o pessoal viu a dificuldade que era ocupar uma posição dessas num clube que tem essa história grande com goleiros. E eu também estou maravilhado com o clube, numa identificação muito grande, renovei o contrato por dois anos. Então a ideia é essa, se eu pudesse escrever um roteiro seria que eu encerrasse a carreira aqui.

A produtividade resolve duas situações: o menino tem um salário baixo, e quando subir para o profissional não vai ficar insatisfeito por ganhar pouco, porque automaticamente o salário vai ser turbinado pelos jogos; o clube fica satisfeito, não corre o risco de fazer um contrato de 5 anos e ver o jogador com mais 4 anos pela frente ficar acomodado e não ter mais interesse de jogar. Então é bom para ambas as partes.

Como você acha que os jogadores recebem esse sistema de contrato de produtividade? O seu é por produtividade? Como os jogadores recebem isso?

É meio que uma divisão de risco. Muita gente acha que só é prejudicial para o jogador, mas eu sempre uso um exemplo onde você pega um menino da base, com contrato de produtividade, que se subir para o profissional ganhará X vezes a mais. Se ele não tiver o contrato, vai subir para o profissional, vai jogar, ser titular, desbancar o titular, que ganhe, digamos 10 mil, e ele vai subir ganhando os seus mil reais, e se o clube não quiser renovar o contrato, ele vai ficar lá, ganhando mil e vendo o reserva ganhar dez mil. Isso vai criar um problema, ele vai ficar insatisfeito e pensar “Pô, estou ganhando só mil reais, não estou sendo reconhecido”. Aí o clube vai renovar, pagar 10 mil por mês, para equiparar o salário com o antigo titular, e o menino em seis meses cai de rendimento e não joga mais. Daí o problema que era do menino, de não ter um salário condizente, passa a ser do clube, que vai ter dois jogadores mal que ganham 10 mil, e vai precisar contratar um terceiro, que vai querer ganhar nesse faixa. A produtividade resolve duas situações: o menino tem um salário baixo, e quando subir para o profissional não vai ficar insatisfeito por ganhar pouco, porque automaticamente o salário vai ser turbinado pelos jogos; o clube fica satisfeito, não corre o risco de fazer um contrato de 5 anos e ver o jogador com mais 4 anos pela frente ficar acomodado e não ter mais interesse de jogar. Então é bom para ambas as partes. Mas a maior dificuldade da produtividade é encontrar um meio-termo entre o salário fixo e a produtividade, porque se colocar um valor muito alto de produtividade, será complicado o jogador aceitar. Então o mais difícil é encontrar um equilíbrio.

E em relação à aposentadoria, você tem alguma ideia de quando pretende parar, ou pretende ir sentindo como está, vendo enquanto está feliz e em alto nível?

No mínimo mais esses dois, mas creio que antes dos 40 anos eu não devo parar, até porque me sinto muito bem fisicamente e não vai ser com 38, 39 anos que vou perder a parte técnica. E até por isso que faço uns sacrifícios aqui, cuido da alimentação, me privo de algumas coisas. Sempre falo que ninguém para de jogar porque quer, é porque o corpo não aguenta. Não é por sorte que tem alguns que conseguem jogar por mais tempo, não é acaso e nem é só genética; muito é pela conduta do atleta, que tem que ter a consciência que o material de trabalho dele é o corpo. E é por isso que eu faço esse sacrifício, trabalho preventivo, para que a parte física não seja um problema para mim.

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Fernando Prass durante a entrevista. Foto: No Ângulo

Você acha que a rescisão com o Vasco pode ter abalado um pouco a sua relação com a torcida, ou não é o que você sente?

Então, eu fiquei com essa dúvida até ir jogar lá. Eu tinha visto o Fábio ir jogar lá, e ele foi muito vaiado, e uma das coisas que eu esperava era que me recebessem em São Januário dessa maneira. Mas pelo contrário, não fui vaiado em momento nenhum, a torcida não me xingou, e no fim da partida vários torcedores pediram minha camisa e vieram falar comigo. Acho que eles entenderam a situação que o clube estava passando, o que era uma situação natural. Até porque não fui só eu, né, saíram 10 ou 12 jogadores: Nilton, Alecssandro, Felipe, Juninho, antes o Diego Souza, Fágner, Rômulo, Allan, Dedé, Carlos Alberto, Eder Luiz, saiu praticamente todo o time. Então era uma situação natural que o clube ia ter que enfrentar pela situação financeira em que se encontrava.

Você pegou o último Vasco forte. Depois disso o clube caiu, subiu e agora corre risco de cair de novo. Quando você saiu, dava para imaginar que o Vasco ia viver essa situação?

Olha, a gente conversava muito sobre isso, principalmente os mais experientes, que eram eu, Juninho e o Alecssandro. A perspectiva de 2013 para o Vasco ia ser muito complicada pelo que estávamos vivendo em 2012 e também pelo que a diretoria passava para a gente, das contas bloqueadas e dos problemas financeiros. Claro que no futebol muitas vezes isso não se reflete em campo, mas dava para ver que a indicação era muito complicada mesmo.

Olha, a gente conversava muito sobre isso (crise no Vasco), principalmente os mais experientes, que eram eu, Juninho e o Alecssandro. A perspectiva de 2013 para o Vasco ia ser muito complicada pelo que estávamos vivendo em 2012 e também pelo que a diretoria passava para a gente, das contas bloqueadas e dos problemas financeiros

Você é um dos jogadores mais ativos no Bom Senso Futebol Clube. Como você tem visto a relação dos atletas com o movimento?

O futebol é um reflexo da sociedade, e até que a coisa afete no próprio bolso, aperte o calo, o brasileiro é muito passivo, é difícil que tome uma atitude para ajudar outras pessoas, que não seja em causa própria. E no futebol é mais ou menos assim, são poucos os jogadores que têm consciência de que os times menores, das séries B, C e D, precisam de uma voz ativa, e até mesmo os que não têm série, porque defendemos a criação de uma Série E, precisam de um calendário melhor para poder sobreviver, senão vão acabar se extinguindo. Mas o jogador brasileiro é muito passivo e alienado em relação a isso, não se preocupa a não ser no momento em que chegue nele, que aí ele começa a viver a realidade do problema, mas aí o problema já está grande demais e é difícil de controlar. Então temos que antever os problemas, e o Bom Senso se preocupa muito com isso.

Qual é a mudança mais urgente do futebol brasileiro, a que você mais gostaria que acontecesse?

Acho que é a de gestão. Porque ela leva a todo o resto, é um efeito dominó. Se o clube obedecer a alguns princípios que a MP já está estabelecendo, ele obrigatoriamente vai se preocupar em ter um calendário melhor, uma estrutura melhor, em melhorar a gestão por completo. O primeiro passo foi dado, que foi a aprovação da MP, e agora tem o segundo, que é a criação dos mecanismos para fiscalizar as contrapartidas da MP. Isso é muito importante, é claro que não é um mecanismo perfeito, mas é uma grande evolução comparando ao que a gente não tinha no futebol brasileiro.

Qual é a sua opinião sobre os jogos às 11h?

Olha, tem um componente que é difícil de prever, que é o clima. Em alguns lugares, por exemplo, não precisa nem prever: Goiânia, por exemplo. Teve um jogo Goiás x Joinville, que foi um absurdo. E nem precisa conhecer bem, eu morei um ano e meio lá, e quem conhece a cidade sabe que ia ser um tempo seco e um calor absurdo. Tem algumas situações que são estranhas, porque o Sindicato dos Atletas tinha que ter uma posição sobre isso e, até onde sei, não foi feito nada. Aqui em São Paulo teve, e a gente deu azar de pegar um dia que às 10 horas da manhã já estava 30 e poucos graus. É um horário diferente, para o público é muito bom, mas tem que ter cuidado com essa parte do clima, que influencia muito na parte física, na saúde dos jogadores e também na qualidade do espetáculo, porque a qualidade cai sem dúvida nenhuma.

Você e o Ricardo Oliveira tiveram um desentendimento no último clássico Palmeiras x Santos. Vocês se falaram depois disso, ou ficou por isso mesmo?

Não, não tivemos nenhum encontro depois disso. Foi o jogo do primeiro turno do Campeonato Brasileiro e depois disso a gente não se falou mais não.

E em relação ao Gabriel Jesus, o que você tem a dizer sobre como é jogar com ele, sobre o futuro dele? Ele é realmente diferenciado?

No futebol é muito difícil fazer projeções. Claro que olhando para ele hoje, com 17 para 18 anos, e fazendo uma perspectiva de crescimento, o nível dele com essa idade não é normal, é um jogador de exceção. Mas também já vimos várias situações em que o jogador chega a determinado patamar, mesmo jovem, e daí não tem evolução. Mas o Gabriel tem a cabeça muito boa, e isso é o principal para ele evoluir, porque o jogador com 18 anos não tem como estar pronto. E a gente nota isso nele, tanto emocionalmente, tecnicamente, taticamente também, o entendimento de jogo, ele tem evoluído, e a expectativa e a sensação que eu tenho é que ele tem muito a crescer, uma margem de progressão muito grande, e pela idade ele com certeza vai ter muito destaque.

Para você, qual é o melhor jogador atuando no Brasil?

Hoje é difícil falar. Eu gosto muito do Giuliano, do Grêmio. Eu vejo o futebol com uma visão mais tática, não sei se é porque eu sou goleiro. Gosto muito também do Luan, do Atlético Mineiro. Tem muitos bons jogadores para citar.

Eu gosto muito do Giuliano, do Grêmio. Eu vejo o futebol com uma visão mais tática, não sei se é porque eu sou goleiro. Gosto muito também do Luan, do Atlético Mineiro.

E os melhores com quem você jogou?

O melhor eu acho que foi o Ronaldinho Gaúcho. Depois joguei com o Juninho, com o Felipe e também o Evair. Pensando agora, acho que os principais foram esses.

E os melhores treinadores? Os mais importantes na sua carreira

Treinador é difícil de falar, porque depende muito do momento do time, das conquistas. Eu tive uma relação e um momento muito bom com dois treinadores do Vasco, que foram o Ricardo Gomes e o Cristóvão Borges – que assumiu depois daquela situação com o Ricardo. A gente viveu uma fase maravilhosa em 2011-2012. São dois que me marcaram bastante.

Fora você, quais seriam os três goleiros que você levaria para a Seleção?

Os três que estão indo mesmo: Jefferson, Marcelo Grohe e Allyson, até por entender que o ideal é ter dois goleiros experientes e um goleiro novo, com muito potencial, que é o Allyson, para ir sentindo o ambiente e amadurecendo dentro da Seleção.

Fernando Prass defende pênalti decisivo contra o Corinthians. Foto: Heitor Feitosa/VEJA.com
Fernando Prass defende pênalti decisivo contra o Corinthians. Foto: Heitor Feitosa/VEJA.com

Você comentou que repara no jogador pela parte tática, também fala muito bem, tem esse lado mais politizado. O que você pretende fazer depois que encerrar a carreira, você tem ideia?

Para te falar a verdade, não sei. Hoje, por estar há mais de vinte anos no futebol, provavelmente o meu universo de escolhas vai estar restrito ao futebol: treinador, gerente, diretor, empresário. Até por isso acho que depois que eu parar, vou querer morar um ou dois anos fora, para estudar alguma coisa e viver algo totalmente contrário ao futebol. Se você só conhece o doce, não tem como gostar do salgado, então eu quero experimentar uma coisa totalmente diferente do futebol, para ver se eu me encanto, ou se vejo que o que me preenche é realmente o futebol.