
Créditos da imagem: Juan Mabromata/AFP
Depois de quatro anos de seca na Libertadores, nós brasileiros tivemos o melhor campeão possível para elevar nosso jogo. Agora tri da América, este Grêmio é um modelo a ser seguido no nosso futebol. Sob qualquer ótica, ele é exemplar:
- Primeiro time brasileiro “herdeiro de Guardiola” – consegue atuar permanentemente com posse de bola consciente, paciente e objetiva, baseada em triangulações e ultrapassagens, aliada à marcação pressão alta e perfeita imposição territorial, ou seja, ao mesmo tempo em que cria, é pouco atacado, porque sufoca o adversário e o desarticula. Em termos de postura (sem considerar a qualidade individual dos jogadores), a do Grêmio não difere muito, por exemplo, do Real Madrid ou Bayern de Munique;
- Protagonista – entra em campo para fazer o seu jogo, dentro ou fora de casa, em vantagem ou desvantagem, sem se condicionar muito pelo adversário ou pelo placar. É uma equipe quase “autista”, que não respeita muito os clássicos “acordos tácitos” do futebol, do tipo “agora que eu fiz um gol, é a sua vez de de atacar, e vou recuar”.
- Força coletiva – embora tenha jogadores excelentes como Geromel, Arthur e Luan, não tem nenhum “extraterrestre” e seu jogo é totalmente baseado no coletivo. É a excelência tática e coletiva, e não o talento, que permite esse nível de atuação.
- Valorização de um elenco barato – ao contrário de “incineradores” de jogadores, como Palmeiras e Flamengo, o Grêmio investe e confia em cada atleta, e venceu esta Libertadores sem ninguém que tivesse vindo como objeto de desejo. Não tem nenhum Everton Ribeiro, Guerrero, Borja, Felipe Melo, Fred, Robinho, Hernanes ou mesmo Jadson. O trabalho que Renato Gaúcho é capaz de fazer para dar máxima confiança aos atletas é admirável (e sua maior virtude como treinador)! Recuperou outrora refugos como Cortês, Edílson e Barrios, bancou Fernandinho (que jogou demais!) e fez Michel entrar no time como um figurão.
- Uso da base – esta equipe viu a meteórica ascensão de um magistral Arthur, a consolidação de Jaílson, a afirmação de um cada vez mais decisivo Pedro Rocha (vendido no meio do ano), bem como recorria constantemente a Everton, praticamente um décimo segundo jogador. Mas, ainda antes disso, o clube já tinha profissionalizado e firmado Grohe e Luan.
- Identificação com o clube – o técnico é simplesmente o maior ídolo da história do clube. E além dos pratas da casa, outros atletas são muito identificados com o Tricolor, como Geromel, Ramiro, e os ausentes Douglas e Maicon.
- Sem “projeto” caro ou pretensioso – o excelente trabalho realizado pelo Grêmio poderia ser feito por praticamente qualquer outro grande clube brasileiro, se tivesse a mesma competência. E sem CEO, gerente de futebol badalado ou “professor” posando de protagonista.
Como na na conquista da Copa do Brasil de 2001, quando calou um Morumbi lotado por 80 mil corintianos e encantou o Brasil por dominar o jogo do início ao fim, uma vez mais o Grêmio passa como um rolo compressor (sem menções ao histórico Inter dos anos 40) por um adversário dificílimo. Com as duas vitórias nas finais e a falta de tradição do Lanús, provavelmente a História registrará que o Imortal apenas confirmou seu favoritismo, mas os argentinos merecem todo o respeito e poderiam ter tido melhor sorte na partida de ida, quando o Grêmio garantiu a vitória graças a um milagre de Grohe no primeiro tempo, e um gol ao acaso, em uma substituição desesperada de Renato -que mudou a característica da equipe e gerou uma bola vadia desviada por Jael (sim!!!) e aproveitada por Cícero. Fora isso, o Granate neutralizou os donos da casa.
Mas, apesar de o Grêmio ter criado menos oportunidades do que os argentinos em Porto Alegre, eu esperava um bom resultado na Argentina. Na primeira partida o tricolor não criou, mas foi o dono do campo, trocou passes naturalmente até a entrada da área e não teve problemas em tirar a bola dos hermanos. O gol de Cícero foi determinante, pois colocou os gremistas em vantagem e obrigou que os argentinos tentassem atacar na finalíssima, permitindo que o Grêmio usasse seu melhor manejo para criar jogadas ao natural.
Seja pelas substituições que permitiram o gol no primeiro jogo, por manter Fernandinho como titular na finalíssima, ou por forjar esta equipe brilhante e segura, esta taça é de Renato de cabo a rabo. E, justo ele, sempre tão perseguido por não rezar pela cartilha dos “inteligentinhos” -que querem que ele não seja marrento, que diga que “estuda”, que aprende com os europeus e faça proselitismo político- deu uma lição ao competente, “estudioso” (discípulo de Guardiola) e sem noção Jorge Almirón, treinador argentino que disse, na semifinal, que o Grêmio não seria difícil.
Agora, sonhar com o Mundial é obrigação!
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