
Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo
A notícia da possibilidade de criação da “Champions das Américas” é uma oportunidade de ouro para o futebol no continente, de norte a sul. Em pleno 2015, não faz sentido nenhum ser contrário à globalização. Além de inevitável, ela pode ajudar a enriquecer muito as culturas e sociedades.
O futebol europeu é um exemplo disso. A Europa sempre foi mais rica do que a América do Sul, constantemente contou com jogadores de fora do continente, e nem por isso conseguia dominar o futebol mundial. Entretanto, com o Caso Bosman – que a partir de 1996 eliminou os limites para que clubes europeus contassem com atletas de outros países da Comunidade Europeia em seus elencos (o que inclui os casos de Dupla Cidadania, como os sul-americanos naturalizados) -, foi aberto o caminho para que o”Velho Mundo” tivesse uma hegemonia inédita na história do esporte mais popular do mundo, não só na esfera de clubes, como – surpreendentemente, de seleções.
Isso se deve à intensificação do intercâmbio, que elevou o conhecimento e o nível do futebol praticado por lá.
Mesmo tendo desde a sua origem alguns dos países mais ricos (e onde o futebol é mais popular) do mundo entre seus membros, a UEFA mostra constante determinação em ampliar “sua rede”. Hoje, reúne 54 federações nacionais, inclusive de países como Israel – que nem fazem parte da Europa. Tudo com a intenção de ampliar mercados e representatividade, que já inclui países tão diferentes entre si como Turquia, Azerbaijão, Israel e Bielorrússia.
Aqui na América do Sul nós temos a tradição, a excelência no esporte e a paixão, mas nos falta o dinheiro. Nos Estados Unidos e Canadá (que o diga o frisson causado pelo Impact de Montreal, vice-campeão da Liga dos Campeões da CONCACAF), é totalmente o oposto. É uma complementaridade perfeita! E até o México – que é apaixonado por futebol, mas não tem histórico de sucesso – às vezes mostra como gostaria de ser chancelado pelo futebol daqui, como nos recentes investimentos milionários feitos pelo Tigres para conquistar a Copa Libertadores.
Falando na tradicional competição da América do Sul, é um absurdo ver tanto potencial jogado fora. Em 2013 uma criança foi morta durante uma partida do prestigiado torneio, e neste ano a novidade foi a vergonhosa “armadilha” para os jogadores do River feita por torcedores do Boca no Superclássico Argentino.
Por favor, que não coloquemos o calendário como um problema. O que prejudica o calendário são os estaduais, não a “Champions das Américas”. Tampouco distância (Reykjavík, na Islândia, e Baku, no Azerbaijão, não ficam nada próximas). Que deixemos de nos achar sempre diferentes e de justificar nossa falta de iniciativa com subjetivismos como “questões culturais”.
Se vai ser dividida em zonas, ter equipes convidadas ou credenciadas por critérios técnicos, substituir a Libertadores ou a Sul-Americana, e até mesmo as premiações, tudo me parece detalhe numa fase ainda tão embrionária. O fundamental é decidirmos se desejamos integrar as Américas e criar uma alternativa à hegemonia do futebol europeu, ou se deixaremos eles se apoderarem não só do talento de jogadores brasileiros e argentinos e da paixão de vários torcedores daqui (hoje a camiseta infantil mais vendida no Brasil é a do Barcelona, ou melhor, “Barça” para os íntimos), mas também do mais rico mercado consumidor do mundo, ávido por “autenticidade futebolística”, na América do Norte. Se os gigantes sul-americanos aceitarão o desafio de “colonizar com a bola” uma região que pede por isso, ou se nos resignaremos em ser periferia até no que somos os maiores expoentes mundiais.