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No Ângulo | Futebol é preciso

Bandido x Torcedor

04/04/2016

Créditos da imagem: Editora Abril

Fui ao estádio pela primeira vez em 1971. Sei que parece mentira, mas meu irmão mais velho, Edgar (17 anos a mais que eu), saiu de sua casa e foi buscar a mim, o Edmir e o Nico para ver Corinthians e Palmeiras no Morumbi. Edmir e Nico são meus irmãos também (um com dois e outro com seis anos a mais). Vimos o jogo da arquibancada inferior. Todos misturados, palmeirenses e corintianos. Eu fiquei logo na frente, encostado ao muro de contenção dos torcedores. Quanto mais o jogo ficava difícil, mais aumentava a pressão. Estava quase sem ar com meu peito, de nove anos, apertado ao muro que delimitava a arquibancada. Mas valeu a pena. O Timão ganhou por 4 a 3 do Palmeiras em uma tarde/noite histórica. Rivelino fez gol, assim como Tião e Mirandinha. Adãozinho foi um herói. E ganhamos de Ademir da Guia, Leão, Leivinha, César, Dudu & cia. Saí extasiado. No caminho para a rampa de descida do Morumbi, um palmeirense exaltado correu, pulou e bateu numa placa de sinalização com o grito “Curíntia fdp”. Foi minha estreia.

Depois disso, com meus irmãos, entre eles o grande Edgard, vi outros jogos. Todos com torcidas misturadas. Não havia ainda a divisão de torcedores. O Edgard tinha o cuidado de nos mostrar um sinal de localização antes do jogo. Um poste, uma placa ou qualquer referência que servisse para nos encontrarmos no caso de nós, crianças, nos perdermos. Fui depois a outros jogos com o Edgard, e mais tarde com meus amigos.

Não me lembro de a quantos jogos fui como torcedor e a quantos como jornalista. Meus dois filhos conheceram estádios em todas as regiões porque compartilhei com eles a felicidade de gostar de um esporte, ter um time e curtir um bom futebol. Hoje, fico extremamente triste. Por que um jogo entre Corinthians e Palmeiras serve de motivo para brigas irracionais? Para tirar a vida de uma pessoa?

Em 2011, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, fui ver com meu filho Figueirense x Corinthians em Santa Catarina. O Vasco era nosso grande rival. Se vencêssemos e o Vasco empatasse, seríamos campeões. Ganhamos e o Vasco também, e o título só veio na última rodada. O que mais me impressionou nesta partida foi o fato de passar parte do primeiro tempo no meio da torcida organizada do Corinthians. Ninguém via o jogo. Rolava uma bebida diferente e uns cigarros estranhos. A bandeira cheia de ácaro nos cobria o tempo inteiro. E havia uma parte do grupo disposta a brigar com quem reclamasse de seus “procedimentos”. Ninguém via o jogo. Só provocavam e brigavam. Aos 15 minutos de jogo, mudei de lugar. Vi melhor a partida. O Corinthians ganhou com gol de Liédson. Mesmo assim, os “torcedores” tentaram pular as grades para brigar com os defensores do Figueirense.

A gente vai, passa por isso e leva em frente. Mas não dá para aceitar que bandidos briguem e deem tiros em estações de trens e metrô. Mais um inocente foi embora ontem. Quantos outros irão para que se tomem medidas duras e antecipadas contra aqueles que usam a bandeira de times para justificar seus instintos criminosos?