Pular para o conteúdo
No Ângulo | Futebol é preciso

Atrás da fumaça do charuto de Eurico, o campeonato à parte

23/06/2015

Créditos da imagem: Rubens Lemos

Quinta derrota consecutiva, oito jogos sem ganhar, único time que ainda não venceu no torneio, lanterna da competição, o arquirrival na próxima rodada e com o treinador pedindo o boné. Seria uma segunda das mais turbulentas para o Vasco e o assunto giraria em torno da crise agravada na Colina.

Seria. Se não fosse o charuto de Eurico Miranda, sempre pronto para fazer fumaça quando precisar. E foi assim que a semana se iniciou em São Januário: com a cortina esfumaçada que sai não só do seu inseparável cubano, mas também das palavras do presidente vascaíno, que resolveu falar de contratações.

Dentre elas, Léo Moura, a que mais chamou atenção: após sair como ídolo do Flamengo, poucos meses depois vestiria a camisa do arquirrival. Estranhamente, Eurico não deu explicações sobre como fechou o negócio.  Tão suspeito quanto a ausência de declarações do próprio jogador, seu empresário e seu time. Mais tarde, saberia-se que nem foi Eurico que tratou da negociação, coisa rara nesse tipo de caso. Entretanto, como não acreditar na palavra do presidente?

Eurico disse sim, mas Léo Moura disse não. O jogador explicou que não havia nada acertado. Para o Vasco, o acerto foi verbal e tem até gravação.

Acertado verbalmente ou não, Eurico sabia o que estava fazendo. Ao anunciar o ídolo do Flamengo sem nada assinado e rapidamente, matava dois coelhos com uma cajadada só: destabilizava o rival na semana do clássico e tirava as atenções da crise em São Januário. E ainda acalmaria a torcida vascaína, que sabe que o time precisa de contratações.

O presidente vascaíno, como já cansou de provar e até falar, mira com raiva no Flamengo. Com o escarcéu feito pelo lado rubro-negro com as contratações de Guerrero e de Sheik, que inclusive diz-se que negociava com o Vasco, Eurico precisava dar o troco. E com requintes de crueldade, a bola da vez seria Léo Moura. Tirar jogador do Flamengo não é novidade para Eurico: Bebeto e Romário são apenas dois exemplos.

Mas o que leva um presidente com 40 anos de futebol anunciar um jogador sem estar com o papel assinado? Ora, caso Léo renegasse o acerto ou voltasse atrás, Eurico sairia como o enganado e Léo, como o sem palavra. E já bem queimado com grande parte da torcida que o idolatrava. E foi o que aconteceu. Do contrário, com a contratação se confirmando, não se falaria de outra coisa a não ser a traição do ídolo rival, noves fora o ganho técnico ou não que Léo daria ao time.

Em ambos os casos, Eurico iria conseguir o que queria: tirar o foco da crise que se aprofunda no campeão carioca. Desde sempre, Eurico é o para-raio vascaíno. Para o bem ou para o mal, as atenções voltadas no mandatário ajudam a tirar o peso das costas de jogadores e comissão. Celso Roth chegou e pouco se repercurtiu sobre a saída polêmica do clube, quando fazia campanha regular em 2010, que para muitos vascaínos é considerado uma traição. Apenas um dos exemplos.

Ainda que não esbanje o mesmo vigor de outrora, o tempo não muda o homem. Eurico utiliza o mesmo modus operandi de sua gloriosa época (80 e 90), o que aliás, nem era prerrogativa só dele: o próprio Flamengo daqueles tempos cansava de subir seus balões de ensaio para amenizar a crise e acalmar a massa. Algumas vezes é possível notar a utilização desse método país afora, quiçá no mundo.

Então, Eurico não pensou duas vezes. Fez-se presente, à sua maneira, com todo seu mise-en-scène que lhe é peculiar e armou a casa para Celso Roth ter alguma tranquilidade para reiniciar sua caminhada. Afinal, tem um clássico mais do que nunca decisivo no final de semana e que para o todo-poderoso do Vasco, é um campeonato à parte. Que começa fora das quatro linhas e com dias de antecedência.