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No Ângulo | Futebol é preciso

Sobre a obsessão brasileira por Libertadores

20/09/2017

Créditos da imagem: Conmebol

Só o mundo é o bastante 

A quatro ou três dias de disputarem o jogo decisivo por uma vaga em semifinais de Libertadores, os clubes envolvidos atuaram com reservas no Brasileirão. Sendo dois deles os mais próximos do distante líder, a diferença na tabela voltou aos dois dígitos. Naturalmente, também voltaram as críticas ao desprezo pela disputa do título nacional mais importante. Mas, afinal, quão importante é um título nacional quando a verdadeira obsessão do torcedor brasileiro vai além da própria Libertadores? O que conta é o mundo e nada mais, como quase cantaria Guilherme Arantes.

É apenas por isso que o título sul-americano vale. Portanto, também está valendo qualquer passaporte para a competição. Se vier um título no meio (brasileiro, Copa do Brasil ou irmã da Gretchen), melhor. Mas, no fim, o que importa “é quarta-feira”, como cantam as torcidas para lembrar “carinhosamente” que não perdoarão eliminações na “reta final” para a conquista do planeta. Sim, do planeta. Desde quando brasileiro se preocupa em juntar esforços para ser apenas o melhor do continente? A Argentina tem mais títulos de Copa América e isso nunca tirou o sono da seleção brasileira e seus torcedores – inclusive, ou principalmente, quando a prioridade do torcedor brasileiro era a seleção.

Não se iludam. Sem o “golden ticket” para o Japão ou Oriente Médio, a torcida do seu time estaria pouco se lixando para a Libertadores. O torneio seria o que o Mundial é para os europeus: importante, mas sem problema algum se deixasse de existir. Em nenhum outro idioma e sotaque o termo “melhor do mundo” soa mais doentio que quando pronunciado por brasileiros. Não apenas no futebol. “Fulano é bom no biribol, mas é o melhor do mundo? Não? Então porque estamos perdendo tempo com ele?” A chance de um medalhista olímpico de ouro ser lembrado um ano depois já é pequena. Imaginem a de uma prata ou bronze. É Brasil “über alles” (na pior das traduções), ou nada.

Claro que Libertadores ainda é o único caminho atual (a não ser que a FIFA emplaque alguma fórmula populista, como a do Mundial de 2000) para chegar ao topo do mundo. O que nos leva à principal indagação desta coluna: o que acontecerá quando a torcida finalmente se der conta de que as chances de bater o campeão europeu são cada vez mais ínfimas? Vai continuar torcendo loucamente para seu time apanhar de Real Madrid, Barcelona (ou um time que bateu os dois) em dezembro? Um presente de grego em véspera de Natal.

Hoje, por mais que o torcedor já saiba da diferença técnica (salvo policarpos achando que o campeão espanhol suaria sangue no Brasileirão), o retrospecto ainda anima. Desde 2005, apenas um dos quatro brasileiros perdeu a final do Mundial – o Santos de Neymar, naquela surra histórica contra seu futuro clube. Nas outras três, em suados 1 a 0, deu Brasil. Sim, os outros brasileiros nem passaram pelo representante africano. Sim, todos os outros sul-americanos perderam. Sim, apenas um clube marcou mais de um gol contra o europeu – e, ainda assim, era o local japonês. Mas o que move a cabeça do torcedor é o 3 a 1 a favor. “Deixou chegar…”, como dizem.

Mas virá a hora, e pode ser daqui a três meses, em que um brasileiro terá que encarar o Real Madrid. Desta vez, sem tempo de preparo específico algum (inclusive para planejamento de viagens de torcedores), já que a Libertadores acabará um mês antes. Vamos supor que dê a lógica e o clube espanhol passeie em campo, como o rival catalão fez em 2011. Vamos supor também que a história se repita em 2018, com mais vida mansa do Velho Continente. Até quando o brasileiro seguirá os preceitos de Rocky Balboa e continuará avançando enquanto leva porrada? Não desistir nunca era lindo na propaganda ufanista, mas na vida real não demora muito para a persistência virar conformismo. Para cada Dona Maria dando lição de vida no JN, há milhares (milhões?) de compatriotas deixando pra lá.

Neste contexto, não se espantem se em pouco tempo acontecer o inverso: quadrifinalistas de Libertadores entrando com seus times principais no campeonato brasileiro e equipes mistas na quarta-feira. Jornalistas e torcedores acharão boas desculpas para aceitar, dizendo que “Libertadores é muito bagunçada”, “rola doping”, “tem mais é que boicotar essa estrutura capitalista opressora da FIFA”, etc… Deixem que argentinos, uruguaios, colombianos e outros sejam massacrados anualmente pelos times da “geração Playstation”. Só assim, na base da conveniência, para o país realmente se tornar humilde. Provisoriamente, é claro. Ainda estarão esperando que, num ano desses, apareça um time muito acima da média e restaure a crença na superioridade do produto canarinho. Projeto Tokyo is back!