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Neymar construiria uma nova muralha da China se juntasse todas as pedras atiradas contra ele desde que decidiu ficar mais rico, trocando o Barcelona pelo Paris Saint Germain
Nada parece tão cruel na vida que julgar e condenar sem tomar conhecimento dos argumentos do colocado no paredão. Não é o primeiro, no esporte e na vida, em todos os sentidos, e não será o último, na certa. Afinal, não é de agora, da invenção da chamada rede social, que juízes sem toga e sem estudo, de mãos pesadas, batem em quem bem entendem. Na maioria das vezes sem bons argumentos na sentença. Geralmente sem se olharem no espelho e se perguntarem: o que eu faria se estivesse do outro lado?
Se sou a favor ou contra? Ouço os argumentos, analiso e não julgo pelo que eu faria. Sendo que não tenho a mínima chance de estar em situação igual. É disso que falo. Não importa o que você acha, porque corresponde o que você faria, se não há a menor chance de você se sentir em situação igual e, portanto, não ter como saber e sentir.
Já escrevi aqui e ali algumas vezes, sobre a insistência com que companheiros, em mesas de debates, insistiam que jogadores brasileiros só deveriam ir para fora se fosse para defender times de primeiríssima linha – Barcelona, Real, Milan, Manchester etc -, não só desconhecendo se o jogador, no caso, tinha ou tem qualidades para desejar tanto, como desconhecendo os planos e as necessidades do atleta. Não basta querer jogar apenas nessas grandes equipes, que disputam as grandes competições da Europa, é preciso ver se o craque é “tudo isso”.
Do jeito que falavam e falam – hoje o face está transbordando de opiniões semelhantes, era e é como se, um exemplo, um médico só devesse aceitar trabalhar em hospitais como Sírio Libanês, Osvaldo Cruz. Ou, falando da classe, jornalista só devesse aceitar trabalhar na chamada grande imprensa – desnecessário citar nomes. Quem já esteve dentro sabe como é e que não é…
Também já contei aqui, e cabe repetir, a resposta que Pelé me deu, lá pelas 6 da manhã, após treinar quase de madrugada, preparando-se para voltar a jogar, pelo Cosmos, depois de se aposentar e não aceitar convocação para disputar a Copa da Alemanha, em 1974. Indaguei se ele sabia o que o povo estava dizendo e ouvi que pouco se importava, porque se um dia ficasse duro, ninguém iria socorrê-lo, mas o massacrariam, dizendo que tinha gastado tudo com mulheres e bebidas. Pelé, anotem bem, assinou com o Cosmos por três anos, recebendo o correspondente, hoje, a uma merreca de 5 milhões de dólares – 16 milhões de reais. E ainda tinha de implantar o futebol nos Estados Unidos e ser garoto propaganda da Pepsi. Dezesseis milhões de reais 440 mil/mês, secos -, trocados que “qualquer perna-de-pau” ganha hoje, até mesmo por aqui, nessa Terra de Santa Cruz.
As pedras atiradas contra Neymar levam mensagens de todos os tipos. Mercenário, traidor, jogador que chuta sua história em troca de dinheiro. Longe do Barcelona, acham que jamais será considerado o maior jogador do mundo. Não ganhará a Bola de Ouro. Não terá o mesmo prestígio e vai por aí…
Escolho entre tantas, uma pedra atirada por um jornalista brasileiro que hoje estuda na França e de lá dá “aulas” de cidadania, de boas maneiras etc. Disse ele que Neymar só frequenta as rodas onde hoje é visto, por ser milionário. Fosse pobre, e nem olhariam para ele. Por ser incapaz de falar sobre arte, por exemplo. Disse muito mais, e na verdade, nem precisaria viver na França, de onde posa de professor, para fazer tais afirmações, sabidamente verdadeiras. É o tal preconceito, que cobravam de Pelé quando ele dizia ser mais social que racial.
Se futebol fosse um esporte limpo fora do campo, valeria a pena uma análise mais demorada. Não é. Aliás, falando de lisura no esporte, nem o tênis é mais branco, na roupa e nas atitudes. São muitas acusações de jogos vendidos. No atletismo a sujeira está no doping. O ouro rende dinheiro. No xadrez… Não prego a malandragem, as maracutaias, as negociatas, longe de mim tal. Também não acho que dinheiro é tudo e o mais importante. Não mesmo. Assim como não é o inverso. Portanto… Neymar vai deixar o Barcelona e abandonar seus torcedores? Nada legal para estes. Mas, qual foi a manifestação dos apaixonados pelo time catalão fizeram quando seu time passou a perna no Santos, que de santo nada tinha no comando? E quando desmascararam as negociatas do presidente que contratou Neymar? Ainda está preso?
De onde vem as toneladas de libras, dólares, euros que fazem girar o futebol? De alguma fonte de água pura? Futebol há muito tornou-se um grande e nebuloso negócio. Os jogos lá fora são meras sessões de um grande e milionário circo. Sorte dos que criados em circos mambembes por aqui, têm a chance de mudarem para debaixo de uma lona sem furos.
Mais rico, Neymar não saberá discorrer sobre artes. Também não saberia menos milionário. Tudo se resume na liberdade de escolha, que não deve ser negada a ele nem ao Evaristo…