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No Ângulo | Futebol é preciso

A falácia dos elencos: futebol de verdade não é o do video-game e seus “skills”

11/06/2017

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Não quero aqui diminuir a importância de um bom elenco. Se o fizesse, seria louco. A questão aqui é outra: o que é de fato um bom elenco?

Nos últimos tempos, a imprensa tem decretado se um time pode ou não sonhar com um título em função do que ela acredita ser um bom elenco. Não importa o que as equipes têm jogado ou mesmo suas pontuações. O que interessa é o quão supostamente qualificado é “o elenco”.

Pois bem, em boa parte, “o elenco” é uma abstração. Ao contrário do video-game, em que cada jogador tem seu “skill” (habilidade) definido, o futebol real não é assim.

Existem jogadores que se destacaram em uma equipe organizada e com bom ambiente, que nunca mais revivem o momento; há atletas talentosos que precisam se sentir queridos para render; tem o tipo de jogador que gosta de ser coadjuvante e não serve para ter todos os holofotes voltados para si; há juniores despontando, que hoje podem não ser “ninguém”, mas que estão simplesmente em vias de serem reconhecidos; e, finalmente, há os que já conseguiram muito na carreira, carregam o nome da glória, mas começam a decair e ninguém consegue identificar se é apenas uma má fase ou se vão ladeira abaixo.

É muito mais fácil jogar em equipes acertadas. Quando os times estão equilibrados e vivem boa fase, é frequente que um reserva qualquer entre e não se faça notar negativamente, independentemente do “skill” que a imprensa e os torcedores costumem lhe atribuir. Assim como equipes bagunçadas e com pressão são incineradoras de jogadores, mesmo os mais experientes e consagrados.

Quem não considera tudo isso parece não entender as sutilezas que fazem, por exemplo, Grêmio e Corinthians estarem praticando o melhor futebol do país, mesmo sem serem apontados entre os postulantes ao título brasileiro antes do início da competição. Quantos deram o Imortal como morto depois da grave lesão de Douglas? Porque a pessoa olha, por exemplo, o jovem e promissor volante Arthur, e pensa que é um “ponto fraco”, sendo que daqui a algum tempo ele pode estar voando alto.

Já um Conca, por exemplo, que sequer entrou em campo ainda pelo Flamengo, segue “contando pontos” ao superestimado elenco rubro-negro. Assim como Michel Bastos parece ser mais analisado como “jogador de Copa do Mundo em 2010” no “estrelado elenco palmeirense” do que pelo que tem jogado nos últimos anos.

Marquinhos Gabriel e Giovanni Augusto foram bem no Santos e Atlético Mineiro, respectivamente, em 2015. Em 2016, com responsabilidade e pressão em cima, não conseguiram jogar no Corinthians. Mas agora, na reserva de um time que vive boa fase, não podem vir a ser boas opções no elenco?

Há apenas um ano e meio, Rodriguinho era um reserva desacreditado no Corinthians, e não era prata-da-casa e nem novato, já tinha 27 anos. Quem via o meia tendo que substituir Jadson ou Renato Augusto pensava que “não tinha elenco”. Hoje, é um dos principais jogadores do país e está na Seleção. Assim como Moisés, aos 29 anos, saiu de “ninguém” para, talvez, melhor jogador do título palmeirense em 2016.

É impossível dissociar um jogador de seu time. Isso se reflete até mesmo em gigantes como Messi e Cristiano Ronaldo, ou alguém acha que é coincidência que o argentino era visto como claramente superior ao português nos anos em que o Barcelona de Guardiola brincava com o Real Madrid ou qualquer outra equipe, e hoje, em tempos de domínio madridista, o gajo está conseguindo reverter isso? Imagine então em um futebol tão instável e renovador como o nosso.

Por isso prefiro ver o que o campo está dizendo. E nisso, Grêmio e Corinthians parecem estar “produzindo bons elencos”.