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No Ângulo | Futebol é preciso

Pontos corridos não causam menor público

12/06/2015

A imprensa esportiva vem nos informando já há algum tempo que a maioria dos clubes da primeira divisão quer acabar com os pontos corridos. Existem dois argumentos centrais pelo fim deste sistema: não há emoção e não há público. O segundo seria uma consequência do primeiro. E essa suposta falta de interesse do público seria a razão para uma mudança do sistema de disputa do Campeonato Brasileiro, bandeira levantada principalmente pela TV Globo.

Eu tendo a concordar que muitas vezes no campeonato de pontos corridos falta emoção na disputa pelo título, mas esta não é a única disputa do campeonato. O argumento de que os pontos corridos geram públicos menores é mais controverso. Gostaria de conhecer quais os números que eles possuem para chegar a esta conclusão. Ou será que se trata de achismo?

Minha intuição dizia que eles não estavam com a razão. Sim, é obvio, a fase decisiva de um mata-mata tende a atrair grandes públicos. Mas estamos falando de dois, três jogos, uma pequena fração do total que se disputa em um campeonato. Ao fim, também em um campeonato com mata-mata, a média de público de uma equipe é provocada principalmente pela fase de pontos corridos. E creio que os pontos corridos são bem mais interessantes ao torcedor em um campeonato de pontos corridos do que em um torneio com playoffs depois. Afinal, uma coisa é disputar 38 partidas para ser campeão ou obter classificação à Libertadores. Outra coisa é disputar 38 partidas para simplesmente se classificar para outra fase. Parece-me maçante.

Mas chega de intuições e achismos. Vamos aos números. O gráfico abaixo fornece a média de público no Campeonato Brasileiro de 1991 a 2014. O período escolhido teve como intenção ter o mesmo número de observações para os dois tipos de disputas, sem voltar excessivamente no tempo de modo a manter uma comparabilidade. A era dos pontos corridos começa em 2003 e é marcada pelos pontos vermelhos e roxos no gráfico. Bem, parece que os pontos corridos têm mais público, não é mesmo? De fato, a média dos pontos corridos é de 14.493 espectadores por partida, a média da era pré-pontos corridos a partir de 1991 é 12.481. Portanto, os pontos corridos levaram um público 16% maior.

No gráfico, os anos marcados em roxo representam o período em que várias das principais equipes do Brasil tiveram seus estádios fechados por causa da Copa do Mundo. Internacional, Atlético Paranaense, Flamengo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético Mineiro e Ceará estão entre as equipes que foram desalojadas. Certamente, jogando em suas casas habituais estes clubes teriam médias muito melhores, e a mesma lógica vale para os campeonatos em si.

004 Pontos corridos não causam menor público

Os defensores do mata-mata, no entanto, ainda podem argumentar, com razão, que os campeonatos dos pontos corridos tendiam a possuir uma menor quantidade de equipes. Entre 1991 e 2002, o número médio de equipes na primeira divisão foi 24,6. Entre 2003 e 2014, este número foi 20,8. Ou seja, na era dos pontos corridos os grandes têm um peso maior na média de públicos.

Bem, a solução então é comparar o que aconteceu com cada clube individualmente. Dos chamados 12 grandes, que também são os 12 que mais disputaram primeira divisão no período, oito tiveram média de público maior nos pontos corridos. Aqueles que possuem média de público menor nos pontos corridos são Vasco, Atlético, Santos e Palmeiras. Vasco e Palmeiras tiveram queda discreta: 2,7% e 4,4% respectivamente. Os oito times que tiveram aumento na média tiveram aumento de pelo menos 8%. Em média, entre os clubes grandes houve crescimento médio da média de público de 13%.

No caso dos dois clubes que tiveram queda maior, cabem ressalvas. O Atlético jogou o último Brasileiro no Mineirão em 2009. Depois, ficou em estádio menores, basicamente Arena do Jacaré e Independência. No período em que usou o Mineirão nos pontos corridos, 2003 a 2009, o Atlético possuiu média de público ligeiramente maior ao período entre 1991 e 2002. Já no caso dos Santos é preciso levar em consideração a diminuição da capacidade da Vila Belmiro, que hoje é de 16.000 lugares. Na semifinal de 1998, por exemplo, o Santos teve público de 25.000 pessoas contra o Corinthians. Praticamente todos os estádios do Brasil tiveram diminuição da capacidade no período, mas isto não é relevante se a capacidade é confortavelmente maior que a média de público, o que é o caso da maioria dos clubes da série A, mas não do Santos.

Medias de publico

Diga-se que houve aumento de público também para a maioria dos demais clubes que tenham participado de uma quantidade razoável dos dois tipos de campeonatos: Sport, Atlético PR, Bahia, Vitória, Coritiba, Goiás, etc.

Sim, é claro, outros fatores podem ter contribuído para um aumento das médias de público do Brasileirão. O que se pretende mostrar aqui é que simplesmente não existe evidência nenhuma de que os pontos corridos provocam “menor interesse do público”. Se existe evidência, é no sentido contrário.