
Créditos da imagem: GAZETA PRESS
Em tempos de ótimos públicos nas novas arenas, o assunto que tratarei nas próximas linhas rondou os meus pensamentos.
Sabe aquele tipo de oportunidade que acontece uma vez na vida? E que não tem mais volta?
Pois então, quando o Morumbi deixou de ser o estádio paulista para a Copa do Mundo (seja por interesses políticos, seja pelo tal “padrão FIFA”) e o Corinthians vislumbrou a chance de erguer o seu próprio estádio, penso que um erro estratégico ocorreu: a capacidade de público de sua nova casa, esta que efetivamente saiu do papel, mas que hoje comporta “apenas” 49.205 pessoas.
Bom, antes de desenvolver as minhas ideias, acredito ser importante manifestar que há dois clubes verdadeiramente “de massa” no Brasil: o Flamengo, que atua no ainda grande Maracanã, e o Corinthians, ambos com verdadeiras multidões de fãs espalhados pelo país. Logo, aquela máxima de tratar os desiguais na medida de suas desigualdades, há de ser observada. De maneira que comparar a Arena Corinthians com a do Palmeiras (com capacidade para 43.600 espectadores), por exemplo, não parece razoável. Embora enquanto instituição ambos se equiparem, é inegável que no fator torcida há uma disparidade. Basta pensar que a torcida corintiana é, sozinha, quase do mesmo tamanho das outras grandes do estado (Palmeiras, São Paulo e Santos) somadas.
Na mesma linha, eventualmente comparar um estádio recém construído com a “La Bombonera”, construída em 1940, e com capacidade atual para 49.000 pessoas (semelhante à de Itaquera), seria uma análise fria e simplista, baseada tão somente em números. Suponho que, caso tivessem a mesma oportunidade vivida pelo Corinthians e fosse algo física e legalmente viável, os dirigentes e torcedores da equipe argentina veriam com bons olhos a possibilidade de obter um estádio maior, desde que respeitadas as características e a tradição do seu vertical caldeirão.
É claro que devemos ponderar os altos gastos que a manutenção de um estádio exige (aliás, é inconcebível que o Mané Garrincha, em Brasília, cidade e região sem qualquer tradição futebolística, tenha capacidade para mais de 70 mil pessoas! É simplesmente impossível não suspeitar e imaginar o pior. Um descalabro!). Afinal, estamos um tanto distantes do faturamento dos gigantes europeus Barcelona e Real Madrid, para listar os times atualmente da moda. Porém, penso que particularmente o Corinthians tem uma torcida enorme e ativa, que poderia viabilizar a Arena, tornando-a autossuficiente. E pagando menos por isso. Explico: em um cálculo bem simples, supondo que em todos os setores do estádio fossem cobrados 100 reais por ingresso, com um público de 49.205 espectadores, a renda bruta seria na ordem de R$4.920.500,00, ao passo que, para um público de 80 mil pessoas, para que se chegasse a um valor próximo, bastaria cobrar uma quantia pouco superior a 60 reais por cabeça, ainda um valor alto, vale registrar, só que mais “digerível”.
Fora o ganho esportivo que isso poderia representar, já que quanto maior o público, maior a festa, o incentivo. E a oportunidade de mais torcedores poderem presenciar in loco as grandes conquistas do clube.
Sem querer entrar no mérito sobre os meios pelos quais o estádio foi viabilizado (há quem mencione uma suposta influência do Presidente Lula, que teria sido articulada por Andrés Sanchez e, ainda, que a Arena subiu às pressas para a Copa do Mundo – ocasião que a capacidade atingiu cerca de 70 mil pessoas com as arquibancadas móveis -, e teria até mesmo passado por cima dos Relatórios de Impacto Ambiental e de Vizinhança, obrigatórios em obras desta magnitude), o Corinthians, ao desperdiçar a oportunidade única de ter uma “casa” ainda maior e mais democrática, perdeu também a chance de fazer jus à pecha que carrega de “time do povo”. As cadeiras vazias nos setores mais caros da Arena dão razão e evidenciam o erro estratégico no planejamento de sua capacidade.
O clube, a fim de pagar pelo estádio, institui uma absoluta inversão de valores, vez que, sob o pretexto de estar oferecendo um serviço de maior qualidade – o que de fato está -, transfere ao torcedor/consumidor o ônus de uma obrigação contratual assumida por ele, cobrando um preço de ingresso hoje totalmente incompatível com a situação econômica do país.
Ora, como já dizia o ditado popular, quem não tem competência, não se estabelece.
E segue o jogo.
Estádios internacionais com as suas respectivas capacidades
Barcelona – Camp Nou – 99.354
Madrid – Santiago Bernabéu – 85.454
Saint-Denis – Stade de France – 81.338
Milão – Giuseppe Meazza – 80.074
Lima – Monumental U – 80.093
Manchester – Old Trafford – 76.098
Munique – Allianz Arena – 74.809
Roma – Stadio Olimpico – 72.698
Yokohama – Y. Int. Stadium – 72.370
Buenos Aires – Monumental de Núñez – 57.921
Buenos Aires – La Bombonera – 49.000
(fonte: worldstadiums.com)
Estádios nacionais
Rio de Janeiro – Maracanã – 78.838
Brasília – Mané Garrincha – 70.064
Fortaleza – Castelão – 67.037
São Paulo – Morumbi – 66.795
Belo Horizonte – Mineirão – 62.170
Recife – José do Rego Maciel – 60.044
Salvador – Arena Fonte Nova – 56.500
Porto Alegre – Arena do Grêmio – 55.538
Goiânia – Serra Dourada – 54.048
Uberlândia – João Havelange – 53.350
Porto Alegre – Beira-Rio – 51.300
São Paulo – Arena Corinthians – 49.205
Rio de Janeiro – Nilton Santos – 46.931
São Paulo – Allianz Parque – 43.600
(fonte: worldstadiums.com)
*Texto atualizado em 28/01/2016